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sexta-feira, 22 de Agosto de 2008

AS RESPONSABILIDADES DO TREINADOR DE JOVENS

As crianças e jovens encontram-se, à face da lei, integrados na escolaridade obrigatória pressupondo-se, portanto, que seja esta a sua actividade social dominante. Por isso, a sua participação na prática desportiva não pode deixar de regular-se por objectivos de ordem educativa e formativa que contribuam para o seu desenvolvimento físico, motor, social e emocional e em que se promova, também, a aquisição dos valores e comportamentos caracterizadores do "saber ser" (auto-disciplina, auto-controlo, perseverança, humildade) e do "saber estar" (civismo, companheirismo, respeito mútuo, lealdade). Por outro lado a Especialização e o Alto Rendimento carecem de alicerces consistentes cuja construção, a longo prazo, começa na etapa da Iniciação Desportiva sendo, neste sentido, essencial que o Treinador:
- proporcione às crianças e jovens a vivência de experiências agradáveis e entusiasmantes que, desenvolvendo o gosto pela prática, influenciem a sua adesão e futura permanência no desporto;
- utilize, no desporto infantil e juvenil, modelos de preparação que valorizem a preparação geral e multilateral, orientada para a aquisição de um vocabulário motor alargado, para a formação das capacidades motoras e para o ensino das técnicas básicas de uma ou várias modalidades;
- compreenda que a continuidade dos jovens praticantes no Sistema Desportivo depende, em grande parte, da natureza e tipo da exercitação seleccionada, da organização e direcção do processo de ensino e do estilo de intervenção e relacionamento desenvolvidos no treino e na competição.
O Treinador de jovens desempenha assim um papel central na promoção de uma maior adesão e de um menor abandono dos praticantes, assumindo a responsabilidade de, desde o início, desenvolver nestes o gosto pela aprendizagem e pelo aperfeiçoamento, factores determinantes, a longo prazo, do progresso qualitativo. Ao mesmo tempo cabe-lhe a obrigação de assumir e pôr em prática uma ideia fundamental: que o Desporto, enquanto instrumento de valorização das crianças e jovens que nele participam, deve harmonizar-se com as outras actividades do seu quotidiano, nomeadamente a actividade escolar e os compromissos familiares. E recai, ainda, sobre o Treinador de jovens a responsabilidade, pela forma como organiza e supervisiona as actividades e interage com os praticantes, de concretizar o elevado potencial formativo e educativo que, reconhecidamente, a prática desportiva encerra.
O Treinador, pela sua conduta e exemplo, exerce sobre as crianças e jovens uma forte influência, quer do ponto de vista do seu desenvolvimento pessoal quer da formação desportiva propriamente dita, sendo que muitas das atitudes e comportamentos que no futuro irão manifestar quer como praticantes, técnicos ou dirigentes, quer ainda como simples cidadãos, resultam do tipo de vivências e aprendizagens que experimentaram nas etapas de Iniciação e Orientação desportivas.
Neste contexto, o Treinador não pode deixar de ser um agente promotor de valores e atitudes dignificadoras do praticante e da prática desportiva fomentando neles as normas essenciais do espírito desportivo:
- respeitar e cumprir os regulamentos e as decisões dos juízes;- reconhecer com naturalidade a superioridade dos opositores e aceitar os resultados das competições;
- ser comedido nas suas manifestações, no caso de vitória, evitando humilhar ou diminuir os adversários. Estes, essenciais à realização da competição, em caso algum podem ser vistos como "inimigos";
- cultivar a honestidade e lealdade nos treinos e competições.
Enquanto exemplo e modelo o Treinador deve ainda transmitir, porque as pratica, as atitudes e comportamentos essenciais à aprendizagem e ao progresso:
- assiduidade e pontualidade;
- gosto de aprender, saber fazer e fazer bem;
- participação disciplinada nos treinos e competições;
- empenho e persistência.
Ao Treinador de jovens cabe, num sentido amplo, desde as primeiras sessões de preparação, proporcionar as condições de formação e progresso dos praticantes:
- contribuindo para promover o desenvolvimento e formação geral das crianças e jovens em todas as suas dimensões, com particular destaque para o desenvolvimento físico e corporal equilibrado e harmonioso;
- despertando o gosto e entusiasmo pela actividade física, pelo desporto em geral e por uma modalidade em particular, que não só potencie uma eventual carreira desportiva, mas que também promova, nas crianças e jovens que não venham a ser atletas, o hábito do exercício e dos estilos de vida activos e saudáveis;
- promovendo a aprendizagem e o aperfeiçoamento das técnicas básicas de uma ou várias modalidades.
A assunção destas responsabilidades objectivam-se principalmente nas opções metodológicas e no estilo de intervenção e relacionamento estabelecidos pelo treinador. No que respeita às opções metodológicas estas, para serem adequadas ao desporto infantil e juvenil, devem garantir que o treino e a competição se integram numa perspectiva de preparação a longo prazo e que a preparação geral e multilateral e a indispensável ênfase no ensino e aperfeiçoamento das técnicas fundamentais são devidamente consideradas, desviando-se, deste modo, da tendência para a especialização precoce. Quanto ao estilo de intervenção e relacionamento, o Treinador de jovens deve exibir uma atitude serena e paciente face aos erros e dificuldades de aprendizagem dos praticantes. Estes procedimentos dependem, obviamente, do conhecimento dos argumentos que os justificam, mas a sua aplicação depende, em elevado grau, das convicções do treinador, a que pais e dirigentes não devem ser personagens alheias.
Neste sentido, uma atitude correcta do Treinador de Jovens deve construir-se em torno de três vertentes:
- evitar que a participação nas competições se transforme numa questão de afirmação pessoal, colocando os seus interesses à frente dos interesses e necessidades dos praticantes;
- valorizar, em convergência com os grandes objectivos do Desporto Juvenil, a aprendizagem e o desenvolvimento dos praticantes, relativizando a importância do resultado das competições;
- ter presente que as dificuldades de aprendizagem e os percursos diferenciados dos praticantes têm, em geral, justificação nas características do processo de desenvolvimento biológico.
Em resumo ser Treinador de jovens não se reduz apenas a intervir no ensino e aperfeiçoamento dos aspectos técnicos, tácticos, físicos e regulamentares de uma modalidade desportiva, mas envolve também, obrigatoriamente, a transmissão de atitudes, hábitos de trabalho e regras de comportamento e convivência que valorizem o jovem não só como praticante mas, simultâneamente, como indivíduo e cidadão. E importa destacar que as responsabilidades do Treinador de jovens não se esgotam nas suas intervenções junto dos praticantes, no treino e na competição, mas também é indispensável que se projectem para os pais, os dirigentes e demais intervenientes no Desporto infanto/juvenil.
FONTE: Jovens no Desporto, Um pódio para todos, Edição do Insituto do Desporto de Portugal, Novembro de 2005, n.º 6, tiragem quadrimestral.

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