sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

CARGA DE TREINO - PARTE 2/2



A natureza da carga
A natureza da carga é definida pela qualidade ou capacidade que é potenciada (no plano físico, técnico ou psicológico) e pela solicitação energética ou aptidão funcional predominantemente solicitada (trabalho láctico, desenvolvimento do limiar anaeróbio, etc.).
Esta natureza é também definida pelo quadro temporal onde se inserem: carga ligada a um exercício, a uma sessão de treino, a um ciclo de preparação (semanal ou mais longo). Podemos caracterizar a carga de um ano de treino ou de ciclos pluri-anuais.
Na definição da natureza das cargas será ainda de distinguir entre cargas de treino e cargas de competição. Estas últimas, devido à intensidade, empenhamento e stress emocional com que surgem, possuem características especiais que têm que ser levadas em linha de conta em qualquer processo de planeamento e organização do treino, principalmente no que diz respeito ás exigências que colocam no plano da recuperação física e psicológica.
A orientação da carga
A aplicação da carga de treino pode seguir uma de duas orientações: pode ser selectiva ou pode ser complexa.
A carga é selectiva quando privilegia uma determinada capacidade e, ao mesmo tempo, uma determinada fonte energética.
A carga é complexa quando se solicitam diferentes capacidades e diferentes fontes energéticas.
Esta distinção é basicamente metodológica, ou seja, visa organizar melhor as actividades de treino. Num sentido estrito, um exercício nunca é liminarmente selectivo, põe sempre em jogo uma série vasta de mecanismos reguladores e recursos orgânicos.
Contudo, a selecção cuidadosa de exercícios permite solicitar ao máximo certas respostas funcionais mobilizando apenas perifericamente as demais. Trata-se pois de uma questão de privilegiar umas respostas adaptativas em detrimento de outras.
Neste contexto, mais do que no caso do exercício, será no respeitante a uma carga com uma natureza temporal mais vasta, a sessão ou o microciclo (semana) de treino, que se aplicará esta designação de selectiva, significando intervenções focando aspectos muitos particulares da preparação.
A orientação selectiva de uma carga é em grande medida determinada pela sua intensidade.
A grandeza da carga
A grandeza da carga é determinada pela importância das solicitações (fraca, média, elevada ou máxima) exigidas aos praticantes, sendo avaliada sob duas perspectivas, que constituem as duas faces da mesma moeda: a carga interna e a carga externa.
A carga externa é caracterizada por índices externos, que dizem respeito, simplesmente, às tarefas que os atletas devem cumprir numa sessão de treino. No fundo, a carga externa é tudo aquilo que é proposto ao atleta, em termos de realização de exercícios, onde é definido o exercício ou as suas condições aplicação: duração, frequência (número de repetições), velocidade de deslocamento ou velocidade de execução, totalidade de metros percorridos, quilos de peso utilizados em exercícios de força, número de exercícios utilizados numa sessão de treino, etc.
A carga interna corresponde à repercussão que o exercício realizado tem nos diferentes recursos orgânicos do praticante, energéticos e neuromusculares, principalmente. Tem a ver, então, com o grau de mobilização das possibilidades funcionais do organismo, embora devam ser aqui integrados factores de índole diversa, como o envolvimento afectivo e emocional do atleta, a tensão psíquica associada ao exercício ou a complexidade coordenativa por ele exigida.
A carga interna é avaliada por índices internos, que correspondem ao levantamento das reacções fisiológicas do organismo ao esforço. Entram nesta categoria a contagem da frequência cardíaca ou a determinação da lactatemia, meios habituais nas disciplinas de resistência mas também outro tipo de testes de dimensão laboratorial.
A relação entre carga interna e carga externa é altamente individualizada. Uma tarefa xigente para uma atleta de 10 anos, será uma tarefa ridícula para um bom atleta júnior.
A razão deste facto é que os índices externos da carga respeitantes a essa tarefa têm epercussões completamente diferentes consoante o nível de treino e de capacidade de esempenho dos atletas.
Por outro lado, é evidente que os índices externos e os índices internos da carga são nterdependentes, pois o aumento do volume ou da intensidade determina de imediato o umento das solicitações dos sistemas funcionais (fisiológicos).
É claro que o estado de treino de um atleta influi directa e decisivamente nesta relação ntre carga interna e carga externa. A mesma carga externa aplicada em diferentes omentos da época provoca diferentes níveis de fadiga e de adaptação.
Do mesmo modo, para se obterem níveis de carga interna semelhantes em dois atletas iferentes, será necessário adequar os índices da carga externa às suas características e apacidades individuais.
Em resumo, o treinador e o atleta operam directamente com os índices externos da carga de treino, ao definirem os parâmetros quantitativos concretos dos exercícios e das sessões de treino na programação e planeamento do treino. Estes valores são confrontados com as reacções do organismo no quadro da resposta a uma dada carga.
Estas são avaliadas utilizando os índices da carga interna, para assim melhor adequar as
cargas às possibilidades funcionais do atleta.
A caracterização da grandeza dos estímulos de treino faz-se através daquilo que se designa muitas vezes por componentes da carga: a intensidade, o volume e a densidade.
A intensidade de um exercício representa o nível de empenho exigido ao praticante. A intensidade de um exercício faz sempre referência a um grau de utilização dos recursos e do potencial próprios do atleta, em relação à sua capacidade máxima de execução, para as mesmas condições de prática.
Existe, para cada indivíduo, para cada exercício, um limiar de intensidade mínimo abaixo do qual a execução do exercício não provocará qualquer espécie de efeito.
Existe, evidentemente, a possibilidade de uma aplicação demasiado intensa de um exercício, que ultrapasse a capacidade de adaptação presente do atleta. Isto significa que a intensidade de um exercício tem que ser individualizada.
A determinação da intensidade do exercício de treino é fundamental a dois níveis:
1. Existe uma intensidade óptima individual em cada exercício de treino, que faz corresponder aos objectivos definidos o tipo de resposta orgânica (adaptação) desejada.
2. A intensidade de um exercício define, em primeira instância, a sua especificidade. Pretendemos dizer com isto que, ao definir uma determinada intensidade de esforço para um exercício de resistência, por exemplo, estou a condicionar as adaptações a obter, localizando esse exercício como adequado para o desenvolvimento do limiar anaeróbio ou da potência láctica, por exemplo, ou, se for o caso do treino da força, localizando-o como um meio adequado para o desenvolvimento da força máxima ou da força de resistência.
Neste sentido, pode-se considerar que a intensidade do exercício será o primeiro factor a definir, uma vez que é aquele que melhor representa o impacto que se vai obter sobre o organismo, permitindo, assim, uma correspondência óptima com o objectivo que presidiu à sua selecção.
Na prática, o ponto essencial é a identificação da dimensão óptima do estímulo que permita efeitos máximos a partir do treino realizado.
O esforço que o organismo desenvolve para cumprir um determinado exercício depende, como vimos, da sua intensidade. Mas o grau de efectividade e de consistência das adaptações de treino é condicionado pela duração imposta ao exercício ou pela quantidade de trabalho realizada.
O volume expressa, assim, a duração da influência da carga e o total do trabalho realizado. Pode ser referido a um exercício de treino, a uma sessão de treino ou a períodos de preparação mais longos. O volume sistematiza os efeitos da carga pretendidos desde que permaneça subordinado à capacidade do atleta trabalhar à intensidade pretendida. O volume de um exercício deverá ser considerado excessivo e, portanto, não adequado ao atleta, sempre que force uma diminuição da intensidade prevista.
A densidade de um exercício indica a relação que se estabelece entre a duração dos períodos de esforço e dos períodos de pausa, no âmbito da unidade ou do ciclo de treino considerado.
A densidade é uma característica da carga que se deve acrescentar às anteriores se pretendemos qualificar convenientemente uma tarefa ou uma sessão de treino: a diminuição do tempo de recuperação entre vários estímulos determina fenómenos de acumulação de fadiga, por recuperação insuficiente, criando situações de esforço em que a especificidade é modificada. Pode-se, assim, sem alterar o volume e a intensidade de uma tarefa, aumentar a eficácia do estímulo e variar as condições de aplicação da carga.
Fonte: http://www.fmh.utl.pt/

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

CARGA DE TREINO - PARTE 1/2


1. Fadiga, adaptação e supercompensação
A adaptação no treino desportivo é um processo de autoregulação do organismo do atleta que se modifica funcional e morfologicamente, reagindo aos diversos estímulos (exercícios e sequências organizadas de exercícios) organizados sistematicamente no processo de preparação, optimizando os mecanismos de resposta.
O conhecimento das características de cada estímulo indutor do processo de melhoria do desempenho competitivo é um dos pontos fundamentais da teoria do treino desportivo.
As noções chave deste processo, fadiga, homeostase, recuperação, supercompensação, deverão estar presentes para o entendimento dos processos de treino e da sua organização (para uma revisão consultar material de apoio da disciplina de Biologia do Treino).
Carga de treino
O termo carga de treino designa o estímulo ou stress que é imposto a um praticante desportivo no quadro da realização de exercícios de preparação ou de situações de competição. Estes estímulos, de forma objectiva e intencional procuram induzir estados de fadiga controlada orientados para a obtenção de adaptações específicas. Os níveis de fadiga e os processos de recuperação subsequentes são determinados pelas características dos estímulos aplicados.
O conjunto dos estímulos de treino forma a carga física: é a carga física, associada a um exercício, a uma sessão de treino ou a um ciclo mais longo de preparação, que provoca a resposta adaptativa no organismo.
É necessário ter em conta, no entanto, que o sentido das adaptações de treino obtidas é determinado pela carga física no seu conjunto complexo e variado, e não pelo efeito de um único exercício, que não é suficiente para provocar restruturações orgânicas significativas.
É, sobretudo, a repetição dos estímulos que torna possível a aquisição de adaptações estáveis, que se tornam capacidades presentes no momento do desempenho competitivo.
Verkhoshansky (2002) define carga de treino como o trabalho muscular que activa o potencial de adaptação próprio da fase de desenvolvimento em que se encontra o atleta, no sentido de promover alterações positivas na sua capacidade de intervenção em situação de competição.
Matveiev (1986) assinala, por seu lado, que a carga de treino será sempre uma actividade funcional adicional do organismo, relativamente ao nível de repouso ou ao nível inicial, provocada pela execução de exercícios de treino.
A carga é, então, o elemento central do processo de treino e compreende, em sentido lato, o processo de confronto do desportista com as exigências físicas, psíquicas e intelectuais que lhe são apresentadas durante o treino, com o objectivo de optimizar o rendimento desportivo.
Por outras palavras, o treino é, em termos gerais, um processo permanente de adaptação à carga de trabalho.
Efeitos da carga de treino
O desequilíbrio interno provocado pela aplicação de cargas de treino (heterostase) visa um efeito preciso, correspondente à adaptação específica pretendida, condicionado pelo potencial motor do atleta e da margem de evolução própria do estado de evolução em que se encontra. Estes processos de adaptação que ocorrem no organismo do atleta constituem os efeitos de treino. Eles não se produzem em simultâneo mas de um modo assíncrono, dependente da natureza dos processos metabólicos e fisiológicos envolvidos (veja-se, à frente, a caracterização do heterocronismo dos processos de adaptação e recuperação dos vários componentes do desempenho desportivo).
No que diz respeito ao seu desenvolvimento temporal, fala-se em efeitos imediatos, permanentes e acumulados da carga de treino:
- Efeitos imediatos da carga (ajustamentos): são representados pelas variações bioquímicas e funcionais que se estabelecem durante e imediatamente a seguir ao
esforço, no início da recuperação. È exemplo deste tipo de efeitos a alteração na frequência cardíaca durante e após qualquer exercício físico. Fala-se, a este respeito, também, de efeitos agudos do exercício, que são passageiros e que se não forem sujeitos a um processo de repetição sistemática, não deixarão traços permanentes no organismo.
- Efeitos permanentes da carga: são constituídos por alterações que persistem para além do tempo de exercício e da sua recuperação imediata. Têm a ver com processos fisiológicos que estão na base das modificações funcionais tendentes a uma melhor adaptação ao exercício. São exemplos dos efeitos permanentes da carga as alterações morfológicas no tecido muscular (hipertrofia) como resultado do treino da força ou o aumento da actividade hormonal no espaço de tempo considerado.
- Efeitos acumulados da carga: compreendem o conjunto de variações bioquímicas e morfo-funcionais que ocorrem num período longo de tempo. Estas variações são o resultado da soma de uma grande quantidade de efeitos permanentes e imediatos decorrentes dos exercícios de treino que são executados sessão após sessão. Fala-se, a este respeito, de efeitos crónicos da carga de treino. Esta adaptação epigenética ou
de longo prazo ocorre quando se criam o treino provoca um conjunto modificações funcionais que permanecem estáveis após o termo da estimulação.
O objectivo de um processo de treino bem organizado e planeado é a conversão dos efeitos imediatos e permanentes da carga em efeitos acumulados, pois só estes criam as condições para uma efectiva evolução da capacidade de desempenho do atleta.
Segundo Viru (1996), uma adaptação crónica será melhor sucedida se: 1º a intensidade da acção for suficientemente elevada para induzir os processos de síntese proteica para a reconstituição tecidular pós-esforço até à fase de supercompensação que garante a emergência de uma capacidade superior de resposta do organismo e 2º a aplicação de uma nova carga ocorrer, de forma periódica, logo após o fim do processo de síntese proteica.
Platonov (1991) refere 3 fases de instalação das adaptações crónicas decorrentes do processo de treino:
1. Mobilização sistemática dos recursos funcionais do organismo em simultâneo com a activação da componente genética no decurso da sujeição a um programa de treino de finalidade precisa;
2. A partir do aumento sistemático das cargas produz-se um conjunto de transformações estruturais e funcionais orgânicas corrspondentes ao espectro de solicitação utilizado;
3. A adaptação crónica estável manifesta-se pela presença de uma reserva indispensável para proporcionar um novo nível de funcionamento do sistema, equilibrando as diversas funções em situação de stress elevado para o organismo.
Fonte: http://www.fmh.utl.pt/

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O EXERCÍCIO DE TREINO


O que é o exercício de treino?
A acumulação dos efeitos imediatos das cargas de treino tendem, como vimos, a criar estruturas de resposta orgânica alteradas com um carácter permanente, tendendo para a estabilização da sua cronicidade durante períodos de tempo mais ou menos prolongados, de vários meses a anos. As unidades de estimulação indutoras dos efeitos agudos da carga de treino organizam-se em situações de intervenção definidas designadas por exercícios de treino.
O exercício de treino pode ser considerado como o elemento determinante do processo de treino, porque é o meio prioritário e operacional de preparação dos atletas, pondo em acção as adaptações físicas e as aquisições técnicas fundamentais para a obtenção de um elevado nível de desempenho competitivo. É a forma concreta sob que aparece o estímulo de treino. As adaptações de treino vão-se conseguindo através da repetição sistemática e organizada dos diversos exercícios, segundo uma linha de orientação definida e planeada.
Uma das dimensões mais importantes do treino será a selecção correcta dos exercícios de treino e a sua execução correcta e sem falhas. Cumpridos estes dois aspectos, provavelmente, conseguiremos assegurar 80% do êxito de um programa de treino.
Sejam quais forem os objectivos presentes, desde que previamente definidos de um modo claro e preciso, o desenvolvimento da força máxima, de elementos técnicos da competição, da capacidade aeróbia ou a alteração da composição corporal, é através da
adequação da selecção de exercícios e da sua repetição sistemática que criamos condições para a sua consecução.
Os efeitos agudos do exercício são controlados por aquilo que Fleck & Kraemer (1987) designam por variáveis de efeito imediato de um programa de treino, ou seja, aquelas componentes da carga cuja variação, de sessão a sessão de treino, orientam a natureza e a grandeza do impacto do programa de treino. Nestas variáveis incluímos a selecção do exercício, a ordem dos exercícios na sessão, a intensidade e o volume de cada exercício e do conjunto da sessão, a frequência semanal de sessões de treino e a duração e natureza do períodos de recup eração concedidos no interior de cada tarefa, entre exercícios numa sessão ou entre sessões ao longo de uma semana. Cada uma destas variáveis pode ter uma importância decisiva no impacte da carga de treino e, portanto, na dimensão das adaptações conseguidas.
Estrutura do exercício de treino
Da definição de exercício de treino conclui-se que ele tem uma estrutura que é composta por 4 elementos fundamentais, em estreita relação entre si e que formam uma unidade indivisível, condicionando-se uns aos outros.
1. O objectivo do exercício de treino
Toda e qualquer tarefa que se realiza em treino deve ter um objectivo bem definido, deve corresponder a uma necessidade de preparação determinada a partir da análise do nível de evolução do atleta e da fase da época.
Realizar rotinas de treino que não se sabe bem para o que é que servem é, normalmente, uma perda de tempo, quando não ocasiona o aparecimento de efeitos não desejados.
Um exercício é seleccionado para cumprir um determinado objectivo – esta é uma das regras de ouro da intervenção em treino desportivo e umas das normas fundamentais na actuação de um treinador. Clarificar e explicitar o objectivo de cada tarefa de treino
ajuda a organizar e a sistematizar, de um modo económico (em tempo e esforço) e
eficaz, o conjunto de solicitações que fazemos ao nosso atleta.
O estabelecimento dos objectivos dos exercícios de treino baseia-se, essencialmente, em dois factores:
- na análise dos níveis actuais de desempenho do atleta;
- no prognóstico daquilo que se pretende que o atleta venha a conseguir realizar, no que diz respeito a marcas ou classificações.
A definição cuidadosa e realista dos objectivos de cada exercício de treino é um passo determinante na optimização de um programa de treino, ou seja, da sua eficácia real ao fim de um determinado período de preparação.
2. O conteúdo do exercício de treino
Uma vez estabelecido o que se deve treinar, é necessário decidir como é que o vamos fazer. O conteúdo do exercício diz respeito aos elementos técnicos, tácticos, físicos ou psicológicos que vão ser utilizados.
3. A forma do exercício de treino
A forma é definida pela organização da carga inerente ao exercício que eu vou utilizar.
Tem a ver com o método de treino que vou utilizar.
Definem-se, assim, um volume, uma intensidade, o número de repetições por série, o número de séries, as pausas entre repetições e entre séries e outros factores que compõem o estímulo de treino que se pretende.
4. O nível de desempenho com que é realizado o exercício de treino
O nível de desempenho corresponde ao resultado obtido pelo atleta logo após a execução das actividades inerentes ao exercício de treino seleccionado. O conhecimento desse resultado e a sua comparação com o objectivo definido, dá-nos uma ideia da discrepância entre o que se queria atingir a aquilo que na realidade se atingiu, ou seja, permite avaliar e acompanhar a resposta do atleta ao treino e proceder às correcções que sejam necessárias.
Classificação dos exercícios de treino
No processo de treino de qualquer modalidade desportiva existe uma gama variada e extensa de exercícios que podem ser utilizados, consoante os objectivos que se tenha em mente, as características do atleta, a fase da época de treino e outros condicionalismos.
A classificação mais habitual dos exercícios de treino diz respeito ao grau de parentesco ou semelhança que cada exercício apresenta com os gestos e o tipo de esforço que caracterizam a situação de competição.
Assim, no que diz respeito à sua semelhança com a situação de competição, os exercícios de treino podem ser classificados como de preparação geral, especial e específica.
1. Exercício geral é aquele que surge com pouca afinidade com os movimentos ou a intensidade e duração do esforço típicas do desempenho competitivo do atleta.
Surgem, fundamentalmente, com as seguintes características:
- Têm um carácter formativo acentuado.
- Respondem à necessidade de uma preparação multilateral.
- Ajudam a criar no atleta os pressupostos de coordenação e agilidade importantes na aquisição e aperfeiçoamento técnicos.
- Aumentam a tolerância à carga e a capacidade de trabalho, em termos gerais, do atleta.
- Permitem uma maior variedade de destrezas técnicas dominadas.
- Reforçam a motivação para o treino, permitindo maior variedade e inovação nas rotinas diárias de treino.
- Têm um papel particular nas tarefas relacionadas com a compensação e recuperação de exercícios intensos e específicos.
2. Exercício especial é aquele que tem muitos pontos em comum com o exercício de competição, por conter elementos do gesto competitivo – localização do empenhamento muscular, tensão muscular característica, solicitação energética,
forma e padrão do gesto.
A relação pode estabelecer-se com base na solicitação e desenvolvimento de partes do exercício competitivo ou com base nos grupos musculares estimulados.
Fala-se, a este respeito, de exercícios preliminares e exercícios de desenvolvimento.
2.1 Os exercícios especiais preliminares, também denominados de exercícios de aproximação, são aqueles que contribuem para a assimilação e aperfeiçoamento de elementos técnicos determinados: por exemplo, realização de exercícios fora de água de impulsão vertical de modo a melhorar a potência do salto de partida.
2.2 Os exercícios especiais de desenvolvimento são exercícios orientados para o desenvolvimento das possibilidades funcionais do organismo, ou seja, das qualidades físicas (força, velocidade, resistência e flexibilidade).
3. Exercício competitivo ou específico é aquele que corresponde, de um modo muito próximo, à situação de competição. Pode ser simulado em treino ou pode ser realizado em competição preparatória. Consiste na execução de tarefas com carácter idêntico à actividade de competição, com respeito pelas regras e condicionantes próprias da situação de competição.
Fonte: http://www.fmh.utl.pt/

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

CONCEITO DE TREINO DESPORTIVO E SEUS OBJECTIVOS

A noção de treino está, fundamentalmente, ligada a duas ideias principais:
- Ao trabalho a realizar num determinado campo de actividade para se conseguir um nível de eficácia elevado. Esta ideia aparece normalmente associada a uma prática de repetição de tarefas, muitas vezes apresentadas segundo sequências facilitadoras, organizadas de acordo com uma lógica de dificuldade crescente.
- Ao processo de preparação para um qualquer acontecimento que exija grande concentração por parte do indivíduo ou uma utilização dos recursos físicos e psíquicos de grande exigência.
O treino desportivo abarca estas duas ideias e subordina-as a um propósito principal: a obtenção do máximo desempenho desportivo.
Entende-se por desempenho desportivo, também conhecido pelo termo inglês “performance”, o resultado, obtido em competição, que expressa as possibilidades máximas individuais numa determinada disciplina desportiva, num determinado momento de desenvolvimento do atleta e da época de preparação.
O desempenho, especialmente em desportos baseados na locomoção, ou seja, na acção de translação do próprio corpo de um ponto no espaço para outro, pode ser, por exemplo, o tempo levado a percorrer uma dada distância (fazer 14 minutos aos 5000 m é um desempenho) ou a distância percorrida num determinado período de tempo (conseguir correr 24 km numa hora).
Se pensarmos na curva velocidade / tempo, o objectivo do treino será o de a desviar para a direita, ou seja, correr a mesma distância mais rápido ou correr mais tempo a uma mesma velocidade.
Quando se fala em treino desportivo, portanto, estamos sempre a colocar a questão de uma preparação óptima e sistemática para a competição. Não existe treino desportivo sem um quadro competitivo definido e regulamentado que enquadre, do ponto de vista das dinâmicas sociais, esta prática.
No entanto, a preparação para a competição desportiva, é um processo que tem que ser entendido a longo prazo, devendo desenrolar-se no máximo respeito pelas
características individuais, motivação e integridade do estado de saúde do praticante.
Daí que se considere que, se bem que não exista desporto, ou treino desportivo, sem a competição, também não se poderá falar em treino desportivo quando este não é firmemente orientado segundo uma perspectiva pedagógica e formativa tendo em vista o desenvolvimento pessoal de cada praticante.
Consideramos, então o treino desportivo como um processo pedagógico complexo, porque aquilo que o treinador tem que fazer, essencialmente, é, de um modo apropriado e bem adaptado às capacidades e fraquezas de cada um, ensinar novas destrezas e formas de obter sucesso na competição, desenvolvendo, simultaneamente, a capacidade de trabalho e de entrega do praticante, o espírito de equipa e a aptidão de cooperação, a vontade de superação.
O treino desportivo, conduzido adequadamente enquanto processo pedagógico é, também, um factor de enriquecimento cultural e um estímulo para o desenvolvimento intelectual e cognitivo.
A quantidade enorme de factores com que se lida no dia a dia do treino desportivo
fazem dele, também, um fenómeno complexo, que exige, para que seja bem sucedido, saber e experiência por parte do elemento orientador e condutor deste processo: o treinador.
Objectivos do treino desportivo
Um autor bem conhecido no âmbito do treino desportivo sistematiza do seguinte modo aquilo que considera serem os objectivos gerais desta actividade (Bompa, 1999):
1. Desenvolvimento específico das aptidões e capacidades
O treino está centrado na preparação para a competição. Neste sentido, ele procura, em primeira instância, optimizar as aptidões que mais influência terão nos resultados desportivos. Isto implica uma integração dos vários factores do treino, sendo o treino das qualidades físicas o suporte para um melhor aprofundamento das habilidades técnicas e uma melhor capacidade concretização dos procedimentos tácticos.
2. Desenvolvimento físico multilateral
Apesar do anterior, é reconhecida a necessidade de uma base alargada de adaptações orgânicas e de um repertório motor vasto e variado para melhor responder às necessidades da preparação especializada. Esta temática é nuclear no âmbito da formação desportiva inicial e relaciona-se, naturalmente, com a manutenção do estado de saúde do atleta e da prevenção de lesões.
3. Desenvolvimento psicológico
Neste campo fala-se muitas vezes das “qualidades volitivas”: disciplina de treino e de comportamentos em competição; confiança; coragem; vontade de vencer; gosto pela superação individual.
4. Espírito de equipa
Surge como necessidade em todos os desportos, sejam colectivos ou individuais. Tem a ver com a criação de uma cultura de grupo propiciadora de coesão interna e com amplas consequências no campo da motivação, portanto, influenciando grandemente a optimização dos resultados desportivos e a longevidade da carreira do atleta.
5. Estado de saúde do atleta
A manutenção em estado óptimo da saúde do atleta e prevenção cuidadosa de todos os factores de risco são preocupações centrais num programa de treino desportivo bem organizado e com impacte social. A consideração de factores como a recuperação física, a integridade dos equipamentos, a organização dos exercícios, e muitos outros, podem ser incluídos neste quadro.
6. Prevenção de lesões
Este objectivo, ligado ao anterior, reveste-se de um carácter mais restrito e detalhado, uma vez que diz respeito, muito especialmente à organização dos exercícios de treino e ao suporte articular e muscular envolvido, que deve estar plenamente assegurado. Pode ter uma importância especila no atleta jovem principalmente em disciplinas desportiva onde o impacto físico e o contacto entre oponentes é mais habitrual.
7. Bases teóricas
A actividade do treino deve ser acompanhada pela exposição e discussão sobre os procedimentos e seus fundamentos. Não é aceitável que um atleta não saiba distinguir um esforço de base aeróbia de um outro de velocidade e que não entenda quais os mecanismos subjacentes. Esta questão alarga-se aos domínios técnicos e tácticos, assim como à relevância de muitos factores psicológicos, entre eles o controlo da ansiedade pré-competitiva.
Fonte: http://www.fmh.utl.pt/

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A INSTRUÇÃO DO TREINADOR DURANTE A COMPETIÇÃO

A Instrução da equipa em treino
Parâmetros fundamentais que influenciama eficácia do treino desportivo:
O tempo de prática motora.
As instruções de apresentação das tarefas.
As correções ou feedback.
A organização.
O Clima social.
Instrução da equipa em competição
Possibilidadesde intervenção do treinador são condicionadas pelo regulamento:
Intervenção antes da competição.
Intervenção de forma directa no ritmo da competição (pedido de tempos ou substituições de jogadores).
Intervenções fornecendo informação em momentos de paragemdo jogo ou durante o desenrolar do mesmo.
Intervenções após a competição.
Orientações para a comunicação do treinador
Evitar os problemas técnicos, de significado e efectividade da
comunicação (Shannon, 1959).
Atenção às normas disciplinares em relação como processo de comunicação.
Que os praticantes vejam, olhem, para o treinador.
Intercâmbio de papéis no processo de comunicação.
Ambiente de apoio e empatia.
Adaptar a comunicação em função de cada praticante.
Ser congruente como plano de treino (e coma sua personalidade).
Importância da comunicação verbal e não-verbal.
Não actuar como emissor continuamente.
Pensar antes de comunicar algo.
Antes da Competição
Concentrar os atletas e preparar para a competição.
Incidir na motivação e desejo de superação.
Centrar a atenção.
Antecipar e preparar acções futuras.
Cuidar da quantidade de informação.
Instrução Antes da Competição
As referências à Concentração (onde incluímos a Atenção e o Rigor) são claramente dominantes na intervenção dos treinadores.

A Motivação corresponde a uma outra grande preocupação, orientando-se estas intervenções motivacionais dominantemente para o processo.

A motivação determinada pelas consequências (resultado) é, também, considerada.

Também as referências orientadas para aumentar os níveisde empenhamento e esforço estão sistematicamente presentes.

Apela-se regularmente à confiança, sendo feitos alguns esforços de controlo da ansiedade, ao prazer de jogar e à coesão da equipa.
Tempos de Descanso ou Tempos Mortos
Contar com as rotinas organizativas.
Controlar as suas emoções (calma, optimismo, confiança).
Ser específico fornecendo informação clara e concreta.
Última palavra referida a uma acção concreta a executar imediatamente. (Gipsonet al., 1994)
Encontrar forma de dirigir-se a cada jogador ou praticante.
Intervalos
Intervir de forma objetiva e segura considerando a avaliação da parte anterior.
Informar adequadamente os substitutos.
Atenção dos jogadores/praticantes sobre os elementos que podem controlar. (Beal, 1989)
Fiedler(1978): momentos emque a equipa esteve em baixo; pontos chave; causas dos erros; orientações para resolvê-los.
Durante a Partida
Centrar a atençãodos praticantes.
Cuidar (preparar) do momento de aporte de informação.
Evitar estar continuamente a fornecer informação.
Coerência entre comportamento verbal e não verbal, reproduzindo comportamentos esperados.
Comentar aspectos comos substitutos (maior percentagem de informação ao jogador substituto que ao substituído).
Depois da Partida
Estabelecer rotinas de celebração das competições, independentemente do resultado.
Reuniões baseadas no resultado e no rendimento, reforçando ou incidindo na melhoria de cada um destes aspectos em separado.
Actuação na reunião: motivos porque entraramos primeiros jogadores e justificação do plano de jogo; resumo da competição com relação ao plano de jogo (aspectos positivos e negativos); organizaçãode práticas para suprir debilidades; repetição/ reforçodo que foi bem feito. Gipson, Lowey McKenzie(1994).
Fonte: António Rosado - Faculdade de Motricidade Humana.
Descarregue aqui o Pdf