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quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

TREINAMENTO PSICOLÓGICO E TÉCNICAS PARA A MELHORA DA MOTIVAÇÃO DE ATLETAS

Prof. Zadro Jornada Monteiro*
Prof. Ms. Roberto Mario Scalon**


*Graduado em Educação Física pela PUC/RS. Acadêmico de fisioterapia pela UNIFRA
** Orientador. Docente da Faculdade de Educação Física da PUCRS.Docente do Pós Graduação da Universidade do Oeste de Santa Catarina - Xanxerê (Brasil)

Resumo
O objetivo deste estudo bibliográfico é conceituar o treinamento psicológico e exemplificar algumas técnicas para a melhora da motivação de atletas. Baseado em teorias existentes, este estudo pretende esclarecer e instrumentalizar profissionais de Educação Física com conceitos e técnicas de aprendizagem.
Unitermos: Treinamento psicológico. Motivação. Atletas.
Introdução
É comum no esporte de hoje em dia, atletas de alto nível técnico não obterem os resultados desejados em suas competições. Acredita-se que isto ocorre por muitos motivos, como: o nivelamento dos atletas, a exigência e pressão por resultados positivos, entre outros, por isso, cada vez mais se busca aprimorar e desenvolver novas técnicas. Dentre elas existe o treinamento psicológico, que vem se mostrando, com o passar dos anos, uma ferramenta muito útil para a obtenção de resultados no esporte. Segundo Becker Jr. (2002), a utilização de técnicas de treinamento psicológico possibilitam aprender, variar e aperfeiçoar as capacidades cognitivas. Dentre elas existe a motivação, um fator chave para o desenvolvimento do interesse e auto-estima do atleta.
Segundo Roberts (1995), a motivação tem um papel muito importante na vida das pessoas, mas, lamentavelmente, um fator pouco entendido no meio prático.
No esporte são exigidas muitas capacidades dos atletas e infelizmente muitos profissionais ainda não têm o interesse em trabalhar o fator psicológico do atleta de uma maneira contínua, a fim de melhorar ainda mais sua performance. Segundo Weinberg e Gould (2001), por muitas vezes o treinamento psicológico é negligenciado por falta de conhecimento, percepção, falta de tempo ou à idéia de que as habilidades psicológicas são inatas ao ser humano e não podem ser treinadas. Becker Jr.(2002) ressalta, que o treinamento psicológico e o treinamento físico deveriam desenvolver-se juntos, até a formação de uma unidade, sendo que os programas de treinamento dos atletas devem levar em conta e integrar ambas as formas de maneira bem distribuída. O presente estudo pretende esclarecer a questão prática da motivação, com o auxilio de técnicas de treinamento psicológico.
Treinamento Psicológico
A incessante busca por fama, dinheiro e resultados milagrosos, fazem com que algumas pessoas não se beneficiem com os aprendizados de um treinamento psicológico sério. Felizmente o treinamento psicológico vem aos poucos recebendo uma atenção especial da área científica nos últimos anos. Mais, especificamente, a área esportiva está aderindo às mais variadas técnicas de Treinamento Psicológico, tanto para melhorar fatores psicológicos, quanto aperfeiçoar habilidades físicas de atletas. Além dos resultados positivos que alguns estudos trazem, treinadores e psicólogos estão provando para o mundo que, além do treinamento físico, o treinamento psicológico também é imprescindível para a obtenção de resultados no esporte.
Estudos sobre o Treinamento Psicológico
Em um estudo científico, Scalon et al (2004), concluiu que o treinamento mental (uma das técnicas de treinamento psicológico) é uma variável importante tanto para a melhora da performance, quanto para a aquisição de habilidades motoras. O Treinamento Mental deve, também, ser planificado e bem planejado, respeitando a individualidade biológica e psicológica de cada atleta.
Segundo Becker Jr. (2002) o treinamento psicológico proporciona ao atleta a aprendizagem, manutenção e aperfeiçoamento psicofísico. Para Perez (1995), o objetivo do treinamento psicológico é melhorar as habilidades psicofísicas que influem no rendimento esportivo, bem como nos protagonistas do meio (esportistas, treinadores e etc.). Essas habilidades são:
- Organização da carreira esportiva;
- Automotivação;
- Confronto de situações estressantes;
- Controle da tensão;
- Adaptação às cargas de treinamento e mudanças ambientais.

Nitsch (apud BECKER JR., 2002 : 14) afirma: “o objetivo e a meta do Treinamento psicológico é a modificação dos processos e estados psíquicos (percepção, pensamento, motivação), ou seja as bases psíquicas da regulação do movimento. Essa modificação será alcançada com a ajuda de procedimentos psicológicos”.
Através de medidas psicológicas de treinamento, os objetivos finais podem ser alcançados. Estes objetivos são (Becker jr.,2002):
- Auto- regulação da atividade;
- Influência sobre a habilidade;
- Manejo da auto-imagem;
- Recuperação e reabilitação do atleta;
- Motivação.

O aumento da motivação se dá a partir de técnicas de preparação psicológicas. Em seus estudos, os autores Bandura, Duncan e Mcauley (apud BECKER JR, 2002), mostram resultados similares ao constatarem que técnicas de visualização incrementam o nível de motivação do atleta. Porém um fator importantíssimo nas sessões de imaginação é o conteúdo das mesmas. Bandura, sugere que a visualização seja positiva, contendo situações de êxito, para que a motivação aumente.
Motivação no esporte
Que motivos levam o atleta alcançar seu objetivo ou se empenhar mais? Essa é uma questão muito individual e deve ser tratada como tal. Um treinamento psicológico, voltado para a motivação, pode ser a chave para que o atleta se automotive. Este trabalho motivacional só acontece com a boa vontade do atleta e a boa estruturação das sessões de treinamento, de preferência, individualizada. (BECKER JR, 2002).
Alguns autores ressaltam questões referentes à motivação:
- Perez, (1995 : 121): “Estar motivado é querer obter um bom rendimento e fazer o máximo possível para consegui-lo.”
- Roberts, (1995 : 31): “...a motivação se refere a aqueles fatores de personalidade, variáveis sociais ou cognitivos que entram em jogo quando uma pessoa realiza uma tarefa a qual está sendo avaliada, entra em competição com outros e tenta expressar um certo nível de exigência.”
- Becker Jr (apud SCALON, 2004 : 23): “...fator muito importante na busca de qualquer objetivo.” , “...assim sendo, a motivação é um elemento básico para o atleta seguir as orientações do treinador e praticar diariamente as sessões de treinamento.”
- Heckhausen (apud SCALON, 2004 : 23): Motivação é um processo em busca de melhora ou manutenção da própria capacidade em todas as atividades, nas quais existe uma norma de qualidade (onde se pode medir qualitativamente o próprio empenho) e a execução pode levar ao sucesso ou fracasso.
A motivação é um dos pontos determinantes para o sucesso ou o fracasso de uma carreira esportiva. O atleta com motivação elevada, treina com mais entusiasmo, obtém melhora nos gestos motores, ganha confiança em si mesmo e, conseqüentemente, tem mais chances do que atletas despreparados física e mentalmente. Ganhando, o atleta volta a se motivar e treina com mais entusiasmo, começando tudo outra vez. A partir deste pensamento, podemos visualizar o seguinte círculo virtuoso:


Para que o círculo virtuoso da motivação não se quebre, o treinamento psicológico contínuo e periódico deve merecer uma atenção especial na vida do atleta, sendo encaixado e bem estruturado na rotina esportiva do mesmo.

Motivação interacional

Segundo Weinberg e Gould (2001), a motivação interacional é a visão de motivação mais aceita por psicólogos do esporte e do exercício. Ela é composta por dois fatores: fatores pessoais e fatores situacionais. Esta visão estabelece uma relação entre os fatores tratando-os de uma forma conjunta sem isolá-los. Nesta visão os fatores pessoais e situacionais juntos resultam na motivação do atleta. Veja o quadro abaixo (Weinberg e gould, 2001 : 75):



O treinamento psicológico pode adicionar, melhorar, e/ou treinar os fatores pessoais do indivíduo, porém os fatores situacionais dependem muito mais da vontade e disposição dos envolvidos (treinadores, colegas, etc.), do ambiente (condizente com o desporto) e dos recursos que para ele são oferecidos (materiais, instalações, opções, etc.). Estes fatores integrados pressupõem uma grande chance de manutenção e treinabilidade da motivação de uma maneira duradoura e vitoriosa.
Princípios do Treinamento Psicológico
Seiler e Stock (apud BECKER, 2002) destacam que antes da aplicação de qualquer técnica de treinamento psicológico, é necessário condições para que o aprendizado ocorra da melhor forma possível e com resultados expressivos; são os chamados Princípios do Treinamento Psicológico:
- Iniciativa própria: A decisão de participar de um programa de treinamento psicológico é somente dos próprios atletas, não sendo imposta por terceiros.
- Compreensão: O atleta deve entender todo o processo de seu treinamento. Conhecendo e se acostumando com a técnica, ele se envolve e se empenha, adquirindo uma vontade pessoal em atingir o objetivo.
- Confiança: A partir da confiança no sentido e objetivo do treinamento psicológico, a chance de êxito é muito maior.
- Individualidade: As mais diversas técnicas de treinamento psicológico devem respeitar a personalidade, experiências e posicionamentos dos praticantes, por isso deve ser concebida de forma personalizada.
- Disciplina: Aspectos como, regularidade, continuidade e conseqüência, devem ser incluídos para que o treinamento seja submetido a um sistema organizado e duradouro.
- Métodos: A partir dos primeiros efeitos do treinamento, ele passa a ser usado permanentemente em competições.
- Economia: Treinar o mínimo possível com o máximo rendimento.
- Integração: A integração do treinamento físico junto ao treinamento psicológico de forma bem distribuída.
- Aconselhamento: Com o tempo os atletas podem usar as técnicas sozinhos, mas é sempre bom um aconselhamento de um profissional habilitado para quando necessário.
- Sucesso: É um conjunto de fatores que leva ao sucesso. O treinamento psicológico é apenas um dos fatores e não é milagroso. Não adianta o atleta não estar bem fisicamente, por exemplo.
- Transferência: Assim como o treinamento psicológico influencia numa série de fatores para a melhora esportiva, este serve para outra situações da vida diária, tais como: exames, entrevistas, reuniões, etc.
A seguir, algumas das técnicas mais utilizadas no meio esportivo para a melhora da motivação.
Auto-motivação
Segundo Samulski (apud RUBIO et al, 2000 : 80): “Sobre técnicas de motivação compreende todas aquelas medidas que uma pessoa aplica assumindo o controle sobre seu próprio comportamento, para regular seu nível de motivação”.
O treinamento de Auto-motivação se divide em três técnicas: Cognitivas, motoras e emocionais.
Técnicas Cognitivas (RUBIO et al, 2000 : 80):
Abrange as funções psíquicas como percepção, imaginação e memória. Por meio de processos avaliativos, determinações de metas pessoais, atribuição de causas e auto-afirmações, os praticantes modulam seu estado motivacional atual.
Esportistas de alto nível beneficiam-se das técnicas abaixo:
- Imaginar as capacidades positivas;
- Imaginação de metas concretas;
- Estabelecer e modificar metas;
- Auto-afirmação;
- Antecipação do reforço externo.
Técnicas Motoras (RUBIO et al, 2000 : 82):
Alguns atletas atuam contra o desânimo e a falta de motivação utilizando processos de movimentação. Em outros casos, a participação na organização e realização do treinamento também é uma técnica motivadora para alguns.
Técnicas Emocionais (RUBIO et al, 2000 : 82):
Alguns atletas estimulam-se por meio de emoções positivas durante o exercício e até por estímulos musicais para criar um estado emocional agradável. Existem reações/emoções estudadas como resultados das técnicas emocionais:
- Flow-feeling (sensação de fluidez): domínio total de seus movimentos durante a partida.
- Winning-feeling (sensação de vitória): Sensação de sucesso durante a atividade. O atleta sente-se envolvido e completamente focado em seu objetivo.
- Group-feeling (sensação de união do grupo): Clima emocional positivo e união do grupo em torno de um objetivo e a satisfação dos membros desse grupo.
Monólogo interno
Ryle (apud BECKER JR, 2002) conceitua a técnica como uma conversa interna do praticante consigo mesmo, objetivando modificar estados emocionais presentes. Van Noord (apud BECKER JR., 2002) complementa: “o monólogo interno vai desde experiências encobertas, silenciosas, até vocalizações com voz baixa, expressões treinadas para mobilizar o potencial psicofísico do atleta”.
Schwartz (apud BECKER JR., 2002) verificou que sujeitos que apresentam problemas emocionais, passam 50% de seu tempo repetindo uma fala interna negativa e que nesses casos é necessária a modificação dessa fala silenciosa e não uma simples adição de palavras positivas.
Efeitos do Monólogo interno, segundo Becker Jr. (2002 : 81):
- Bloqueio dos pensamentos negativos;
- Aumento do número de pensamentos positivos;
- Aumento da confiança;
- Modulação da ativação;
- Melhora das condições para tomada de decisão;
- Aumento da motivação;
O monólogo interno focado no aumento da motivação é caracterizado por pensamentos de auto-afirmação, auto-instrução ou pela mentalização positiva do movimento que envolve a ação. Por exemplo, em uma situação de pênalti no futebol, tanto o batedor, quanto o goleiro, devem mentalizar pensamentos de sucesso na definição da jogada. Isso acarretará num incremento de motivação aumentando a chance de êxito.
Quanto à duração e freqüência das sessões, é muito importante a total consciência do atleta, pois o monólogo interno é praticado individualmente, e portanto, cada atleta aprende a usá-la e controlá-la quando necessário.
Estabelecimento de metas
Esta técnica consiste em traçar as metas verdadeiras de cada atleta, para que o mesmo tenha sempre em mente seus objetivos, permanecendo focado e motivado nas atividades esportivas por mais tempo. Segundo Perez (1995), além de se traçar os objetivos, o treinador e o atleta poderão direcionar o trabalho para alcançar de maneira mais eficaz as metas almejadas.
Segundo Weinberg e Gould (2001), as pessoas não tem dificuldade para traçar objetivos, mas, sim, em estabelecer metas efetivas, realistas e criar um programa para atingí-las. Assim sendo, temos três tipos de Metas objetivas:
- Metas de resultado: Focalizam-se normalmente em resultados competitivos de eventos, bem como vencer um torneio, uma corrida ou ganhar uma medalha. Nesse caso, o resultado não depende só do atleta mas sim, dos adversários e outros fatores externos imprevisíveis.
- Metas de desempenho: são metas que dizem respeito somente ao atleta sem levarem em consideração outros fatores como, adversários. É a típica comparação do desempenho próprio, onde se compara os resultados anteriores do atleta, por exemplo, em treinamentos.
- Metas de processo: São ações praticadas durante o desempenho para atuar bem. É como se fosse uma mini-meta, com o fim de alcançar um objetivo maior. Um nadador, por exemplo, pode pensar em manter a propulsão de pernas fortes para ter mais velocidade no nado.
Existem também as chamadas “Metas Subjetivas”, que são as metas globais do indivíduo. Estas metas são muito importantes porque alguns atletas têm muitas aspirações e querem realizar muitas coisas ao mesmo tempo. Porém, traçando metas subjetivas ou globais eles selecionam as prioridades visando o objetivo maior, sem perder tempo com outras metas menos importantes.
Feedback motivacional
O feedback não é uma técnica de treinamento psicológico propriamente dita, porém ela pode ser direcionada para este fim, além de ser uma alternativa muito eficaz na detecção de várias sensações percebidas pelos atletas nas vivências esportivas. Williams (1991), define feedback como uma ferramenta para obter informações sobre a qualidade da execução da atividade.
O feedback é muito interessante porque é uma troca de informações dos dois lados, do técnico para o atleta e do atleta para o técnico. Um feedback bem realizado revela emoções, preferências e descontentamentos dos atletas, nos possibilitando detectar seu nível de motivação para posteriormente prestarmos um atendimento mais próximo e mais efetivo. Para Williams (1991), o feedback é o fator mais eficaz para o controle da aprendizagem e, que, sem ele não existe aprendizagem. Quando um feedback mostra uma melhora de rendimento do atleta, mesmo esta sendo pequena, já serve como uma técnica motivadora.
Weinberg e Gould (2001), definem a importância do chamado feedback motivacional” destas três maneiras:
- Serve para dar um referencial de rendimento ótimo;
- Reforço, estimulando sentimentos dos atletas;
- Serve como controle de metas, (se elas estão sendo alcançadas).
Conclusão
Conclui-se que o treinamento psicológico, de uma maneira geral, serve muito para a melhora do rendimento de várias habilidades psicológicas e físicas, porém, desde que sejam levados em consideração vários fatores, como a própria decisão do atleta em participar de um programa de treinamento desse tipo e o bom preparo do profissional que o acompanha.
Mais especificamente, o treinamento psicológico voltado para a motivação vem trazendo muitos resultados positivos e ajudando muitos atletas a “sobreviverem” neste mundo competitivo, estressante, mas apaixonante, que é o esporte de alto nível. O treinamento psicológico é uma área que precisa ser mais difundida no esporte e mais incentivada no meio científico, para que todos cresçam e se beneficiem de seus vitoriosos resultados.
Referências
BECKER JR., B e SAMULSKI, D. Manual de treinamento psicológico para o esporte. Novo Hamburgo: Feevale, 2002.
MOSQUERA M., J. J. Psicologia do desporto. Porto Alegre: Ed. Da universidade, UFRGS, 1984.
PÉREZ, G; CRUZ, J. e ROCA, J. Psicología y deporte. Madrid: Alianza Editorial, 1995.
ROBERTS, G. C. Motivación en el deporte y el ejercicio. Bilbao: Biblioteca de psicología, 1995.
RUBIO, K.(org.) Encontros e desencontros: descobrindo a psicologia do esporte. São Paulo: 2000.
SCALON, R. M. (org.). A psicologia do esporte e a criança. Porto Alegre: Edipucrs, 2004.
SCALON, R. M. e SOUZA, A. P. S. O treinamento mental como uma variável significativa na performance de atletas e na aprendizagem de habilidades motoras. Buenos Aires: Revista digital, E.F.Deportes.com, Nº 75, 2004.
Weinberg, R. S. e GOULD, D. Fundamentos da psicologia do esporte e do exercício. Porto Alegre: Artmed, 2001.
Williams, J. M. Psicologia aplicada al deporte. Madrid: Biblioteca nueva, 2001.

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