segunda-feira, 24 de junho de 2013

TREINADOR, ser ou não ser? – o outro olhar da Análise Táctica


Ontem, como em todas as festas de crianças de 12 anos, estava um grupo de rapazes a jogar futebol: inventaram as balizas, inventaram o campo, inventaram as equipas, pegaram numa bola e começaram a jogar… eu estava de costas a conversar, mas a «sonoridade especial» que vinha daquele jogo começou a prender a minha atenção porque parecia que a BOLA estava a ser estimada: o modo como os jogadores a tocavam transmitia um som agradável e incrivelmente fluído.

Pedi desculpa a quem estava a conversar comigo e fui sentar-me a observar aquela sonoridade. O que se estava a passar era tão simples como isto: os miúdos apoiavam-se uns nos outros de acordo com uma lógica pequena mas complexa (jogar em passe, só) e, por isso, o seguimento que davam à bola de cada vez que a sentiam (a atacar e a defender) era COLECTIVO. Ou seja, havia ali uma sintonização partilhada por TODOS que se traduzia na CAPACIDADE de ANTECIPAR a intenção do(s) outro(s) e era por isso que eu ouvia “seguimento” em vez de ouvir “confusão”.

Ora esta capacidade assegura a possibilidade de viver o jogo de acordo com a natureza do Jogo – ali os miúdos não estavam simplesmente a agir nem a reagir, estavam a INTERAGIR!… e isso, num processo completamente «selvagem» (sem treinador mas com conteúdos autonomamente criados e assumidos por todos), é “ispectacular”. Digo processo porque, jogando juntos com regularidade (disseram-me que jogam juntos muitas vezes – está explicada a capacidade surpreendente para antecipar: estão entranhados uns nos outros), os miúdos construíram, naturalmente, conceitos (por exemplo jogar em passe) que, por terem existência, transformam os «jogos que jogam juntos» muitas vezes em momentos de aprender a jogar melhor.

É precisamente o formato desta (in)existência (lado conceptual) que define a qualidade de um processo – de que interessa o “como fazer” (operacionalizar) se o “o que fazer” (sistematizar) não lhe dá suporte vital?… Antes de apreciar o trabalho de um treinador é preciso saber se ele é Treinador. E só é Treinador quem procura, em todos os momentos do processo, contribuir para a construção de uma equipa (a sua) com capacidade para expressar um jogar, de preferência de qualidade. O Pep Guardiola é, neste momento, o Treinador da melhor equipa do mundo porque o “Jogar à Barça” é uma existência (mundialmente) real que é consequência de um processo que vive SOBRE conceitos ricos – recuperar a bola o mais rápido possível para poder ter a bola o maior tempo possível para marcar golo – que crescem de acordo com a sua interpretação da expressividade momentânea daquilo que é emergente.

O episódio que problematizei prova que a espontaneidade de miúdos inteligentes os leva a respeitar, instintivamente, a natureza do futebol. Por isso, ao treinador cabe o dever de enriquecer esse instinto com «INTENÇÕES com sentido»: “Jogar em passe” é uma intenção colectiva demasiado aberta (embora suficiente para criar interacção) à espera de um acrescento que favoreça (ainda mais) a qualidade da antecipação.

Assim, por exemplo, “jogar em passe pelo lado mais vazio” mantém abertura (liberdade para decidir) à intenção inicial e acrescenta-lhe o CRITÉRIO que lhe dá sentido. Ser Treinador é ser capaz de acrescentar CRITÉRIO (pelo modo como o operacionaliza) e ser Treinador de qualidade é ser líder de uma equipa que ganha PORQUE “joga à…….”   !!

E este é que é o “outro olhar” da “Análise Táctica”: aprofundar as consequências do confronto entre “ jogar à ……..” e “jogar à …..”.


FONTE: AQUI

segunda-feira, 17 de junho de 2013

OS MANDAMENTOS DE UM TREINADOR - VISÃO DE OTTMAR HITZFELD (FUTEBOL)


Treinador vencedor da UEFA Champions League ao serviço do Dortmund e do Bayern, Ottmar Hitzfeld, partilhou os seus conhecimentos em Nyon, no curso para estudantes da licença Pro.

"Um ditador democrata", é como o treinador da Suíça, Ottmar Hitzfeld, se descreveu aquando da sua visita a Nyon no início do mês, onde falou das suas experiências como técnico com estudantes da licença Pro, por ocasião do programa de partilha de informação de treinadores da UEFA. Duas vezes vencedor da UEFA Champions League, como treinador do Borussia Dortmund (1997) e do FC Bayern München (2001), Hitzfeld falou da sua experiência de 30 anos como técnico e forneceu informação muito valiosa para quem agora começa a carreira.

Trabalhar as suas fraquezas
Eu era muito tímido e mostrava-me inibido quando tinha que falar em frente das pessoas. Como jogador isso não era importante, mas como treinador tive que aprender a olhar de frente e abordar com confiança as pessoas a quem me dirigia.

Ser flexível
É muito importante termos a nossa própria filosofia e conseguirmos implementá-la, mas é também fundamental percebermos que temos de trabalhar com os jogadores que temos. Quando fui para o Dortmund, em 1991, queria jogar em 4-4-2 ou 4-2-3-1, mas o clube havia jogado apenas em 3-5-2. Percebi que, apesar de ter a minha filosofia, não tinha os jogadores necessários para a aplicar.

Lidar com jogadores difíceis
Como futebolista era algo egoísta, pois era avançado e queria marcar golos. Não era, talvez, um grande jogador de equipa, mas, como treinador, conhecia esse tipo de atletas e sabia que me tinha de focar mais nuns jogadores que noutros. Por vezes os melhores elementos são os mais difíceis, mas nada nunca me impediu de lidar com eles.

Aprender com os nossos erros
Precisamos de experiências negativas para melhorar. Perder a final de 1999 da UEFA Champions League foi uma experiência muito boa de analisar porque, dois anos depois, vencemos o troféu. Sofremos golos nos minutos 91 e 93 e falei com os jogadores depois e disse-lhes que não queríamos que as pessoas tivessem pena de nós, mas sim que entendêssemos onde errámos. Não jogámos concentrados até ao último segundo, não mantivemos [o Manchester United FC] longe da nossa baliza nos últimos minutos e estávamos muito nervosos.

Estar actualizado
É importante estarmos a par das novidades. Ser um treinador de futebol é um trabalho a tempo inteiro, o que quer dizer que temos que pensar no futebol sempre, de dia e de noite. Temos que pensar na nossa equipa e sobre os novos desenvolvimentos como a análise vídeo.

Comunicar com clareza
Sempre disse aos jogadores porque é que não jogavam. Na hora de escolher, um treinador poderá dizer: "Não vais jogar. É só". Tentei sempre não fazer isso, explicar-lhe porque é que não o escolhi. Quando era um jovem treinador, passei muito tempo concentrando-me na maneira de como criticar um jogador. Isso é algo que se aprende, não é algo que se saiba como fazer. Temos que ter a certeza que não ofendemos ou magoamos as pessoas. Os jogadores são, muitas vezes, muito sensíveis.

Conhecer os jogadores
Os meus atletas esperam que conheça bem os nossos adversários, mas também esperam que eu os conheça tão bem a eles mesmos. Os jogadores querem que o treinador não os veja apenas como alguém com um número na camisola. Não é só a táctica que importa e o que acontece no relvado, é também o que se passa fora dele. É por isso que é necessário que o treinador estabeleça um relacionamento que reforce o espírito de equipa.

Falar a mesma língua

Para mim, a comunicação é a componente mais importante para um treinador. Precisamos de sentir o que se passa dentro do plantel e termos a empatia necessária. Se trabalhamos para um grande clube, representamo-lo. Somos a sua cara e, através da imprensa, comunicamos com o nosso clube e com os jogadores. É por isso que cada palavra dita, cada insinuação feita é importante. Para um estrangeiro que não domine a língua, treinar pode ser muito complicado nestes dias.

FONTE: AQUI