quinta-feira, 25 de junho de 2015

CHICOTADAS PSICOLÓGICAS 2 - JOSÉ NETO


Questão referente à história e tradição do clube e sua cultura de exigências

Quanto ao ponto de análise correspondente à história e tradição de um clube, bem como a cultura e exigências dos seus diretores, associados e adeptos que possa implicar na contratação de um treinador com um determinado perfil, sem dúvida que me parece fundamental e necessária esta simbiose vivencial, pois ninguém pode oferecer aquilo que não possui. Nestas circunstâncias e para não correr riscos desnecessários, sou a favor de que num clube que tenha por objetivos passos sérios na conquista de um futuro com êxitos, deveria:

- Organizar uma rede de observação e «scouting», a partir das classes mais jovens.

- Ter pelo treino e jogo uma atitude perfeccionista, sempre exposta numa dedicação inspiradora sólida e solidária.

- Possuir nos seus quadros treinadores cujo perfil de personalidade e liderança, seja ajustado ao que foi referido anteriormente. Entendo mesmo que se deveria constituir no Clube um Conselho Técnico (com assento de todos os treinadores e restante staff técnico), reunindo de forma periódica no sentido de ver bem explícita esta filosofia de um crescer sustentado para um ganhar continuado. 

- Criar um gabinete de inteligência competitiva (GIC), no sentido de valorizar todas as competências que possam ser parte do gérmen aglutinador onde “corre” o sucesso – avaliações de ordem sociológica, psicológica e mental; estabelecer um quadro de referências onde se imponham rankings de êxito; inserção de conteúdos numa “nova” metodologia de treino com a aplicação de matérias referentes às componentes atencionais, motivacionais, autoconfiança, coesão de grupo, formulação e reformulação de objetivos de conquista, comunicação, etc, …etc…

Como consequência dos pontos situados anteriormente e porque devem ser objeto de uma reflexão coletiva, todas as fórmulas que impliquem uma tomada de consciência deverão ser institucionalizadas tendo como produto final uma forma de jogar autenticada e assumida como padrão dessa identidade vivida e operante, porque geradora de êxito.

Penso que com a construção de uma atitude mobilizadora destes compromissos, as razões que levam às tão deprimentes “chicotadas psicológicas” ficarão mais retidas no tempo.

Como referia Aristóteles: “ nós encorpamos ações que ao serem repetidas se transformam em hábitos. Se construímos hábitos rotineiros e simplistas, porque não focar o desejo da construção de hábitos de entusiasmo, de confiança, de felicidade, de raça e empenho na conquista do sucesso ?!”.

Porque o GANHADOR é aquele que é capaz de omitir a palavra problema e enfatizar o termo desafio. O GANHADOR não conhece os atalhos do facilitismo, transporta na alma as pegadas da experiência vivida e no rosto o certificado do sofrimento experimentado … vai à luta e …GANHA!... 


FONTE: JOSÉ NETO in http://www.abola.pt/nnh/ver.aspx?id=554287

quinta-feira, 18 de junho de 2015

CHICOTADAS PSICOLÓGICAS - JOSÉ NETO


Questão de um Perfil do Treinador Ideal

Saber muito de técnica e tática é apenas uma condição necessária mas não suficiente para se ser um bom treinador.

Ser bom treinador é um conjunto de pequenas coisas e comportamentos que vão sendo aprendidas através da experiência e treinadas através duma formação adequada, procurando por isso uma constante busca do saber, baseado no estudo e investigação e sustentado na experimentação.
Procurar sempre transmitir o hábito de ser paciente e persistente, tornando os treinos motivantes, criativos e organizados.

Mostrar empenho, compromisso, criando um código de conduta onde se imponha a dignidade e respeito – daí ser também um Educador / Amigo / Conselheiro / Líder.

Deve ter a capacidade para refletir, antecipar, planificar, analisar e decidir perante situações de stress, incerteza e ambiguidade.

Um bom treinador, não tem que ter sempre respostas para tudo o que se lhe pede. Ninguém, seja em que domínio científico for, tem respostas para tudo.

O treinador eficaz, é aquele que está aberto a todas as opções possíveis de forma a responder apropriadamente nas diferentes situações e problemas com que se confronta a competição. Ao reconhecer que não sabe tudo ou não conhece tudo, ele está a ser verdadeiramente humano.
Deve ser capaz de transmitir aos jogadores os valores da honestidade, a firmeza de convicções, integridade, respeito, exigindo o cumprimento de normas internas da equipa, costumes e tradições que reforcem e estimulem o orgulho e desempenho da equipa por si orientada.

Na comunicação com os jogadores a sua mensagem deverá ser baseada na seriedade e otimismo, assumindo o que pretende dizer, com clareza e sem duplo significado, distinguindo os factos das opiniões e ainda sintonizada com a formulação de objetivos positivos, específicos, desafiadores, mas realistas.

Ser por natureza otimista. Deve saber descodificar os fracassos, transformando-os em êxitos – a principal diferenciação entre os otimistas e os pessimistas está na forma como explicam as suas derrotas. Os pessimistas atribuem as culpas às suas próprias deficiências – uma imagem negativa que têm de si próprios. Por outro lado, os otimistas encaram o futuro com confiança – cada derrota encerra a semente para o futuro êxito.

Transmitir uma imagem de serenidade, competência, liderança, responsabilidade e ...cultivar sempre a capacidade organizativa, sabendo que, como iniciei a 1ª parte deste documento, dizia: sem organização não há regras; sem regras não há disciplina; sem disciplina não há resultados e ...sem resultados não há SUCESSO!...


FONTE: JOSÉ NETO in http://www.abola.pt/nnh/ver.aspx?id=554287

quinta-feira, 4 de junho de 2015

FORMAR OU GANHAR? EXISTE INCOMPATIBILIDADE? - ALCINO RODRIGUES


Tendo em conta uma análise ao desporto de formação em Portugal (e talvez também existente noutros países) surge a conclusão que há uma grande propensão para as pessoas colocarem os treinadores em duas dimensões consideradas opostas: os treinadores de competição e os treinadores de formação. Serão estas duas dimensões opostas e impossíveis de conciliar? Formar jogadores ou atletas, ou procurar resultados? Aborda-se a definição de alguns treinadores, que treinam e formam jovens no desporto, como se de pessoas menores se tratasse. Por outro lado estes treinadores, de uma forma geral, deixam-se condicionar por este paradigma e acomodam-se nesta condição. O que contribuiu para a diminuição da importância ou da significância do treinador da formação, que teoricamente “só” tem de formar os atletas, quando o que mais prospera são escolinhas ou academias das mais diversas modalidades? O seu trabalho é igualmente difícil, o seu trabalho tem a mesma, ou até mais, importância na existência de qualidade nos atletas quando eles chegam ao nível mais competitivo. Separa-se muito, pelo menos desde quando eu me lembro de andar no desporto, o “treinador de miúdos” do treinador dos seniores, quando são os treinadores dos seniores que precisam que os treinadores da formação ou “dos miúdos” tenham qualidade no seu treino e no seu trabalho. É uma relação de dependência que é geralmente ignorada ou menosprezada.

Na minha opinião, o que devemos reflectir não é sobre o “ganhar” mas sim qual o caminho que devemos escolher para o conseguir. É verdade que todos gostamos e queremos ganhar. Muita gente perde um pouco (ou muito) o controle emocional quando não ganha. Como se costuma dizer “nem a feijões” gostamos de perder… Todos os treinadores de base procuram obter o melhor resultado para as suas equipas, em todas as partidas, disso podemos ter a certeza. A questão surge acerca de onde colocar o foco principal e manter-se firme nos seus princípios. É no processo e não no objectivo de jogo. E mesmo aqui, com o foco nos processos, no caminho escolhido, pode haver competição. O problema é outra confusão relacionada com a dicotomia apresentada: a divisão não deveria ser feita entre treinadores de formação e treinadores de competição mas sim entre treinadores de formação e treinadores “resultadistas”.

Os treinadores da formação também estabelecem prioridades, procuram e criam contextos para que o seu grupo de jogadores entenda a mesma linguagem técnico-táctica, planeiam o trabalho, determinam um modelo e trabalham em cima dos princípios gerais, em direcção aos princípios específicos do jogo. Estes transmitem constantemente aos seus atletas que ser fiel a tudo isto faz parte do caminho para a competição e que terá várias consequências, nomeadamente a melhoria de rendimento e como corolário os bons resultados. Por vezes vencer jogos pode causar-lhes indiferença e por outro lado algumas derrotas trazem-lhes uma sensação de missão cumprida.

Do meu livro “Como Ser Um Treinador de Excelência” recordo uma passagem em que refiro, na minha perspectiva, como deve ser um treinador formador: “Um treinador excelente deve ser alguém que tem a capacidade de deixar marcas positivas involuntárias e intangíveis nos seus atletas, como por exemplo, admiração, respeito, sentido de dever, capacidade de trabalho, evolução efectiva, ligação afectiva e laços colectivos. (…) É o dever de um treinador proporcionar a melhor experiência desportiva aos seus atletas. Levá-los a procurar a superação, a tornar-se melhores naquilo que fazem, não importando o nível a que se encontrem.”

A competição nas etapas de formação deve ser encarada como uma forma de avaliar o nível de desenvolvimento individual e colectivo das equipas, sendo vital que os treinadores aprendam para ensinar a melhor forma de lidar com a derrota, com as frustrações, com os erros, assim como com a vitória, com o sucesso na execução das tarefas, com a superação e com as expectativas.

Em Portugal temos um hábito “terrível”
O mais habitual é que a avaliação pelos resultados que obtém nos jogos, independentemente do escalão etário, seja aquilo que mede o sucesso e as competências dos treinadores. Quem ganha mais jogos, é muito bom. Quem perde mais regularmente, é muito mau. Esta é a ideia implementada em Portugal, na maior parte das modalidades. Se bem que no desporto de alto rendimento (ou de alta competição) esta seja uma forma de análise, avaliação e reconhecimento dos treinadores, na formação os resultados não são relativizados. O que me parece é que o cérebro do português (falo sempre em geral, obviamente) coloca, nesta dicotomia, tudo dentro do mesmo saco. Só que o problema é que as crianças não são seniores em ponto pequeno, felizmente, e há que ter em conta as fases de desenvolvimento psicomotor, as fases de maturação cognitiva e até de desenvolvimento psicossocial. Isto demonstra que os treinadores “resultadistas” estão a cometer um grave erro ao não terem cuidado com o querer ganhar e a descuidar tudo o que disse anteriormente.

Qual o caminho?
Entender que existirão altos e baixos na progressão dos jovens jogadores, e que ser fiel aos processos de aprendizagem, deixa os treinadores expostos (embora não seja assim tão linear) às vicissitudes na competição a curto prazo. No entanto tudo isto servirá para criar bases sólidas nos desportistas nas temporadas seguintes, através do seu desenvolvimento natural. Seguir este caminho requer paciência, persistência e dedicação, e julgo que é o que falta a muita gente que se encontra à frente de uma equipa de jovens.
Não existe rivalidade entre a competição e a formação. A competição é um componente com alguma importância e um factor de aprendizagem, sempre que seja bem utilizada, ao longo de todo o processo de evolução do jovem atleta. As crianças adoram aprender algo que gostam e merecem um trabalho de qualidade. Quando o foco do treinador é a procura constante de resultados, ignorando as fases da aprendizagem, fazendo uso somente das capacidades ou talento de alguns dos jogadores, a curto prazo ele pode obter os resultados que aspira mas brevemente irá colocar-se em situações pouco confortáveis: atletas que desistem ou mudam de clube, conflitos entre jogadores e até com os pais, e possivelmente problemas com a direcção.


FONTE: Alcino Rodrigues, in http://www.bolanarede.pt/?p=23284